Astara: "Há que criar soluções que gerem menos impacto, não só no produto final, mas em toda a cadeia de fabrico"

O camião ligeiro FUSO Canter não só é um símbolo da indústria em Portugal, onde é produzido há mais de 50 anos. É também parte integrante da história do transporte logístico e de mercadorias no nosso país. Carlos Costa, diretor de Frotas da Astara, representante da FUSO no mercado nacional e associado aderente da Associação Limpeza Urbana (ALU), explica-nos como este modelo se revela agora preparado para o futuro com a introdução da variante 100% elétrica, que, entre outras tarefas, quer participar ativamente na criação de cidades mais inteligentes e sustentáveis.

No complexo e exigente trabalho que representa a limpeza urbana, de que forma a FUSO tem procurado responder às necessidades identificadas?

A FUSO detém várias décadas de experiência na adequação dos seus produtos a esta área de atividade específica, que tem tanto de fundamental como de complexa, com a qual as comunidades contam 365 dias por ano. Está ciente da diversidade de tarefas que estão envolvidas, que muito diferem entre si, como sabemos, consoante as épocas do ano, as geografias, o tecido urbanístico ou as áreas rurais adjacentes. O desenvolvimento de veículos especiais com base no nosso camião ligeiro “Canter”, dedicados exclusivamente a determinados fins, a par com os chassis para estruturas intercambiáveis, extremamente versáteis, tem permitido responder às diferentes aplicações e exigências de transporte. Contamos, para isso, com a rede de parcerias forte e consolidada que estabelecemos com mais de 300 fabricantes de carroçarias de renome em toda a Europa, que nos permite colmatar praticamente qualquer tipo de necessidade. Mas se esta versatilidade é chave no que oferecemos, também o são a robustez e a fiabilidade que são características dos nossos produtos. E, igualmente nesse aspeto, a gama Canter, um produto “made in Portugal”, exportado a partir daqui para mais de 30 países, conquistou um capital de confiança provavelmente sem paralelo.

Carlos Costa, diretor de frota da Astara.

Tem números que possam ilustrar esse sucesso?

Os números são claros quanto a este reconhecimento: durante mais de cinco décadas, já foram produzidas na fábrica do Tramagal mais de 250 mil unidades, das quais mais de 80 mil comercializadas no mercado doméstico. E importa notar que atualmente uma em cada cinco unidades Canter ou do elétrico eCanter vendidas são destinadas à limpeza urbana, o que revela a presença significativa que já temos neste segmento.

A variante 100% elétrica eCanter foi uma das grandes novidades recentes neste segmento. Quais são as suas principais vantagens?

O eCanter é uma solução de mobilidade zero emissões que assinala um salto qualitativo muito relevante na forma como encaramos este segmento de veículos e a sua utilização nas mais variadas atividades. O desafio com este modelo foi dar um passo importante na redução do impacto ambiental, mas manter, ao mesmo tempo, a robustez, fiabilidade e versatilidade típicas das versões com propulsão convencional. Não temos dúvidas de que esse desafio foi cumprido com sucesso.

Podemos esperar o mesmo nível de resposta que encontramos nas versões tradicionais?

Podemos dar como exemplo a variante 8,55t de peso bruto admissível, que é a mais utilizada pelos municípios na vertente de recolha de biorresíduos. Trata-se de um camião ligeiro compacto e fácil de manobrar, com quatro distâncias entre eixos disponíveis – 3400 mm, 3850 mm, 4450 mm e 4750 mm – e uma capacidade máxima de carga de chassis de 5,1t. Está equipado de fábrica com tomadas de força mecânicas opcionais (mPOT), que fornecem unidades de potência, tais como a hidráulica basculante. Este modelo dispõe de um sistema de propulsão elétrica de última geração e altamente eficiente, com 129 kW (ou 175 cv) de potência máxima, e inclui os mais avançados dispositivos de proteção específicos para veículos elétricos. Além da ausência de emissões e manutenção reduzida, tem como grande vantagem uma elevada disponibilidade em toda a gama de velocidades graças ao binário instantâneo, de uma forma silenciosa, suave e praticamente sem vibrações. Isto é particularmente relevante em arranques frequentes, muito comuns na recolha de resíduos.

E em termos de autonomia?

A capacidade da bateria standard (ou “M”) – a mais utilizada – é 82,6 kWh, que permite uma autonomia até 140 km, o que assegura uma ampla faixa de utilização diária. Está também disponível uma bateria com 123,9 kWh, em exclusivo nas duas variantes com maior distância entre eixos, que permite até 200 km de autonomia. São baterias da tecnologia mais avançada, com um sistema de arrefecimento otimizado, que lhes assegura uma longa vida útil. Outro ponto a favor é ainda o facto de poderem ser trocadas individualmente, caso haja necessidade de intervenção. De notar também que, ao contrário de outros camiões elétricos, o eCanter não requer necessariamente uma estação de carga DC, que acarreta custos mais elevados. É compatível com ambas as infraestruturas de carregamento, DC e AC, podendo-se assim optar por esta última, mais simples e mais rentável, incluindo obviamente nas instalações municipais.

Quais são as outras opções que existem dentro da gama eCanter?

Além da versão de 8,55t, a gama eCanter inclui ainda modelos com peso bruto admissível de 4,25t, 6,00t e 7,49t, com distâncias entre eixos que começam nos 2500 mm. É uma oferta completa que, no nosso mercado, atinge um total de 42 variantes, incluindo quatro opções de pesos brutos, dois tipos de cabine, seis distâncias entre eixos, três tipos de bateria e dois níveis de potência. Todos estes modelos elétricos beneficiam da ampla atualização que foi realizada recentemente em toda a gama Canter com motorização convencional. As melhorias introduzidas vieram permitir um acréscimo de conforto e facilidade de utilização, mas também um aumento da segurança ativa e passiva, que os colocam no patamar superior do seu segmento.

Considera que esta transição para a mobilidade elétrica constitui também um desafio do ponto de vista da aprendizagem?

Sem dúvida. É uma transformação estrutural no paradigma da mobilidade que impõe uma adaptação e uma curva de aprendizagem para todos os que integram esta cadeia de valor, sejam fabricantes, fornecedores ou utilizadores. Na FUSO, além da exigência no que se refere à qualidade intrínseca do produto, conquistámos um amplo reconhecimento pela forma como ajudamos os nossos clientes ao longo de todo o ciclo de relacionamento com a marca – desde a escolha pelas melhores opções na fase de aquisição até à assistência pós-venda.

Como é feito o apoio ao cliente?

Nesta nova era da mobilidade elétrica, temos uma rede de concessionários totalmente formada e preparada para ajudar o cliente nas suas decisões e para realizar uma análise caso a caso do custo total de propriedade e utilização do eCanter. Acreditamos que este é um contributo muito importante e diferenciador para uma escolha adequada.

Na recolha de resíduos sólidos urbanos, que grandes vantagens destaca na utilização de um veículo elétrico como o eCanter?

Os benefícios são diversos, tanto a nível ambiental, como económico e operacional. No domínio ambiental, o mais evidente é a melhoria da qualidade do ar nas zonas urbanas, por via da tecnologia zero emissões locais (CO₂ e poluentes atmosféricos), mas também a redução significativa do ruído, que é ideal para recolha noturna ou em zonas residenciais. Neste âmbito, importa igualmente destacar a contribuição direta para o cumprimento das metas de descarbonização e sustentabilidade, nomeadamente no quadro do Pacto Ecológico Europeu. Estes veículos elétricos são ferramentas importantes para reforçar políticas de transição energética e neutralidade carbónica, além de demonstrarem compromisso ambiental junto da população ou poderem integrar projetos de “smart city”.

E a nível operacional?

Já do ponto de vista dos custos operacionais, obtém-se uma redução significativa pelo menor custo por quilómetro comparativamente ao gasóleo, a par com uma manutenção mais simples e menos dispendiosa. Basta lembrar, por exemplo, que estes veículos não têm óleo de motor ou embraiagem e que sofrem de menor desgaste de travões devido à tecnologia de travagem regenerativa. Por sua vez, estes modelos permitem acesso a incentivos e financiamento no âmbito de fundos comunitários ou de apoios como o Plano de Recuperação e Resiliência ou o Fundo Ambiental, possibilitando ainda maiores benefícios fiscais e redução de taxas associadas a emissões. Finalmente, destacaria como vantagem o acesso facilitado a zonas de emissões reduzidas (ZER) e a sua adequabilidade para percursos urbanos previsíveis, com rotas fixas e distâncias controladas.

O que representa o eCanter para a marca neste novo paradigma da mobilidade?

O eCanter materializa a ambição da FUSO – e do Grupo em que está inserida – em contribuir para o desenvolvimento da mobilidade sustentável. Hoje, já não basta irmos do ponto A ao ponto B, temos de pensar como o fazemos. Face à emergência climática, e sabendo-se que 7% das emissões globais de CO2 derivam da indústria de veículos comerciais, há que criar soluções que gerem menos impacto e dar passos consistentes nesse sentido, não só no produto final, mas também em toda a cadeia de fabrico. Concluo com um bom exemplo: em 2022 já atingimos a neutralidade carbónica na unidade do Tramagal e estamos a trabalhar ativamente para atingir essa meta no final da próxima década na Europa, Estados Unidos e Japão. Parte importante desta estratégia global é justamente apoiar a transição dos clientes para a mobilidade elétrica, contribuindo para a melhoria do ambiente e da qualidade de vida das nossas populações.