Mais de 40 oradores nacionais e internacionais e 400 participantes, dos quais mais de 60 % do setor público, passaram pelo 8.º Encontro Nacional de Limpeza Urbana, realizado em Guimarães. Durante três dias, fiscalização, investimento, inovação, comportamentos, espaço público, eletrificação e novos modelos urbanos estiveram em debate. No encerramento, a Associação Limpeza Urbana fez um balanço positivo do encontro e anunciou a intenção de tornar a próxima edição maior e mais abrangente.
Guimarães recebeu, entre 8 e 10 de setembro, o 8.º Encontro Nacional de Limpeza Urbana (ENLU), que reuniu 400 participantes e mais de 40 oradores nacionais e internacionais. Promovido pela Associação Limpeza Urbana – Parceria para Cidades + Inteligentes e Sustentáveis (ALU), em parceria com o Município de Guimarães, o encontro integrou a programação de Guimarães 26 – Capital Verde Europeia e decorreu no MitPenha sob o mote “[Des]Construir o Futuro”.
Durante três dias, municípios, empresas, especialistas, responsáveis políticos e profissionais do setor discutiram alguns dos principais problemas da limpeza urbana, mas também temas que ultrapassam a operação diária dos serviços.
Na abertura, a presidente da Direção da ALU, Ana Raimundo, lançou precisamente o desafio de questionar algumas das respostas que o setor tem vindo a dar. “Precisamos de novos ‘Rs’ – Refletir, Repensar, Renovar as nossas conjeturas”, afirmou. A presidente da ALU defendeu também a necessidade de “reaprender a comunicação e a participação” e de uma maior aproximação às pessoas, primeiro para compreender os seus comportamentos e depois para sensibilizar, envolver, mobilizar e corresponsabilizar.
Questionar certezas para encontrar novas respostas
O esforço realizado pelas autarquias e pelas equipas de limpeza urbana esteve presente em vários momentos do encontro, a par da constatação de que mais meios ou tecnologia não resolvem, por si só, todos os problemas. “Estaremos a desenhar os serviços para responder a comportamentos reais ou aos comportamentos que definimos como ideais?”, questionou Ana Raimundo na abertura.
A fiscalização foi um dos primeiros temas levados a debate. Paulo Caldas, especialista em Segurança Urbana, Alexandre Barros da Cunha, presidente do Conselho de Administração da Vitrus Ambiente, Sílvia Breu, vereadora da Câmara Municipal de Oeiras, e Ana Raimundo participaram na mesa-redonda “Fiscalização, o elefante na sala”, moderada por José Eduardo Martins, da Abreu Advogados.
A comunicação e a mudança de comportamentos tiveram também espaço no programa, com intervenções de Ana Santiago, do Electrão, Francisco Carvalho, coordenador-geral de Investigação e Inovação do Laboratório da Paisagem, e Ana Cristina Carrola, vogal do Conselho Diretivo da Agência Portuguesa do Ambiente.
De Fortaleza, no Brasil, chegou outra experiência. Eduardo Palheta apresentou o trabalho desenvolvido com recurso a videomonitoramento aplicado à limpeza urbana.
“Uma cidade limpa começa muito antes”
A relação entre o trabalho dos serviços e a responsabilidade de quem utiliza o espaço público atravessou vários momentos do encontro. “Mais do que um serviço público, a limpeza urbana é uma responsabilidade civil”, afirmou Ana Raimundo.
“Uma cidade limpa não começa com a passagem do cantoneiro ou da varredora. Começa muito antes”, acrescentou. Para a presidente da ALU, esse processo começa nas decisões dos cidadãos, mas passa também pela forma como os próprios serviços são desenhados, devendo ser capazes de antecipar comportamentos em vez de apenas reagir às suas consequências.
O programa levou também a discussão para outras áreas da gestão urbana. Rute Nieto Ferreira, Senior Project Manager da Gehl – Making Cities for People, falou sobre “Cidades à escala humana”, enquanto Carlos Ribeiro, presidente do Laboratório da Paisagem, apresentou uma reflexão sobre a frequência de utilização dos espaços verdes e a saúde mental em Guimarães.
O financiamento e o investimento nos serviços estiveram em discussão no segundo dia. Rui Caetano, presidente dos SMAS de Sintra, Alexandra Roeger, presidente do Conselho de Administração da AGERE, e Pedro Mendes, administrador da Porto Ambiente, participaram na mesa-redonda “Investir na Limpeza Urbana, Investir na Cidade”, onde foram abordados os desafios colocados às entidades responsáveis por estes serviços.
A tecnologia voltou ao programa através de diferentes experiências. Paulo Leal, diretor-geral da Cascais Ambiente, apresentou o CABI, utilizado na gestão inteligente de resíduos em Cascais, e Augusta Gaspar, da Universidade Católica Portuguesa, abordou a relação entre emoções e mudança para comportamentos amigos do ambiente.
Eletrificação, compras públicas e descarbonização foram outros dos temas discutidos, num momento em que municípios e empresas procuram conciliar as necessidades operacionais com as metas ambientais.
Da limpeza urbana à “Cidade dos 15 Minutos”
Entre os convidados internacionais esteve Carlos Moreno, professor associado da Universidade Panthéon-Sorbonne e autor do conceito da “Cidade dos 15 Minutos”. Em Guimarães, o urbanista apresentou “Novos modelos para as cidades do futuro”, levando ao ENLU temas como proximidade, qualidade de vida e organização dos territórios.
A discussão estava alinhada com uma das questões colocadas por Ana Raimundo no primeiro dia: “Desconstruir o futuro é ter a coragem de deixar de apenas questionar como podemos limpar mais e melhor e começar a equacionar cidades que são limpas de outra forma.”
A componente autárquica esteve igualmente representada ao longo do encontro. Entre os participantes estiveram Ricardo Araújo, presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Nuno Piteira Lopes, presidente da Câmara Municipal de Cascais, Liliana Pimentel, presidente da Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova, e Luís Lopes, vereador da Câmara Municipal de Leiria.
Guimarães, Capital Verde Europeia 2026, levou também ao programa experiências desenvolvidas no território, nomeadamente através do Laboratório da Paisagem e da Vitrus Ambiente.
400 participantes numa edição que “superou todas as expectativas”
No encerramento, a direção da ALU fez um balanço positivo do encontro. Ana Raimundo afirmou que o 8.º ENLU “superou todas as expectativas” e destacou a participação como sinal da vitalidade do setor, da vontade de partilhar conhecimento, experiências e soluções e da afirmação da associação.
O número final chegou aos 400 participantes, numa edição que juntou autarquias, empresas, especialistas, entidades públicas e profissionais ligados à limpeza urbana e à gestão do espaço público.
O balanço serviu também para começar a preparar o próximo encontro. “O 9.º ENLU será o momento de darmos um novo salto”, anunciou Ana Raimundo.
A ALU pretende que a próxima edição seja “maior, mais abrangente e ainda mais ambiciosa”, com uma forte componente de exposição que permita a empresas e autarquias apresentarem projetos e inovações. A associação quer também alargar o âmbito do encontro para além da limpeza urbana.
Até lá, há outros projetos em preparação. A ALU está a ultimar protocolos na área da formação com alguns dos parceiros presentes em Guimarães, assumindo a capacitação e valorização dos profissionais como uma das prioridades.
“Queremos posicionar a ALU como uma Associação cada vez mais presente, mais interventiva e mais relevante”, afirmou Ana Raimundo. O objetivo, acrescentou, é que a associação não esteja presente apenas uma vez por ano para organizar o ENLU, mas desenvolva atividade ao longo de todo o ano.
Falta também saber onde será realizada a próxima edição. As manifestações de interesse para acolher o 9.º ENLU estão abertas, tendo a Direção revelado que já houve conversas com associados interessados em receber o encontro no norte, centro e sul do país. A decisão deverá ser tomada até à Assembleia Geral da ALU, no final de novembro.
Guimarães terminou, assim, com um novo encontro já em preparação, mas também com o desafio lançado no primeiro dia: questionar tarefas que continuam a ser feitas apenas porque “fizemos sempre assim”. “Hoje encerramos o 8.º ENLU. Mas começamos, já hoje, a construir a ALU que queremos ter em 2027”, concluiu Ana Raimundo.
